O Dia Mais Esperado do Ano


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Rodrigo 14 anos

Eu não tinha dormido durante a última semana inteira. Tudo tinha que estar perfeito e a cada vez que eu deitava a minha cabeça no travesseiro, me lembrava de alguma coisa fora do lugar e me obrigava a levantar para arrumar, antes que eu me esquecesse. Podia ser a minha guitarra, que eu já havia aprendido a tocar algumas músicas e estava muito ansioso para mostrar à ele.

Também queria que ele visse o meu quarto arrumado e se sentisse orgulhoso de mim pelos estudos, por isso me esforcei dobrado para as últimas provas. Ele chegaria na semana em que eu deveria recebe-las e queria mostrar a ele que ele tinha dois filhos inteligentes, não apenas Brent. Eu também tinha os meus talentos e podia ser tão bom quanto o meu irmão mais novo.

Naquele dia, eu saí da aula correndo para chegar em casa antes dele, mas me surpreendi ao sair da escola e ver meu pai parado na porta. Ele olhava em volta dos alunos, procurando por mim. Quando me viu, ele sorriu, e eu soube que seu sorriso era sincero. Ele estava feliz por estar ali. Feliz por me ver.

Não pude evitar a felicidade e corri ao encontro dele, sem me importar com as lágrimas que desciam pelo meu rosto. Meu pai estava aqui, isso era tudo o que importava. Talvez ele voltasse de vez para o Brasil e viesse morar comigo e com minha mãe. Isso seria o máximo, mas sei que estou sonhando alto demais e daqui a alguns dias, ele vai embora de novo, mas não quero pensar nisso agora. Meu pai esta aqui e mesmo que seja inútil, vou mostrar a eles todas as vantagens de se morar aqui e fazer com que valha a pena para ele. Fazer com que ele se lembre de mim quando voltar para a família nova dele.

Tenho que ir agora, aproveitar o meu pai com o pouco tempo que eu tenho com ele. Não sei quando ele volta, mas espero que seja logo.

Guigo 



Férias e Praia


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Sara, 15 anos.

Bilhete para posteridade:

Olá Sara-mais-velha,

Espero que você já tenha colocado algum juízo na sua cabeça quando tiver seus vinte e poucos anos, porque hoje é notável que você não tem nenhum. Se não lembra o que aconteceu no pôr-do-sol desse domingo de Julho, eu vou refrescar sua memória com o turbilhão de emoções que estão passando na minha mente agora. Caso você esteja surtando e se perguntando: "MEU DEUS O QUE FOI QUE EU FIZ?" Bom, não precisa de tanto, eu já vou contar.

Calma.
Não é algo para perder a cabeça, mas com toda certeza, algo marcante.
Hoje, Sara Alcântara-mais-velha, você deu o seu primeiro beijo.

Eu estou em cabo frio, digo, nós estávamos. Estamos aqui perto da Praia do Forte, no Hotel Malibu e Lúcia está no quarto com a gente e também está escrevendo em seu diário, deitada na cama, na mesma posição que nós.

PS: Espero que sejamos amigas para sempre e se algo ruim ou até mesmo algo bobo aconteceu, faça o favor de procurá-la e ajeitar as coisas. Ouça o conselho que você mesma se deu.

João saiu para pegar garotas, ele está em uma fase insuportável. Não que ele do tipo baladeiro, mas conheceu algumas meninas aqui e passa o dia todo -às vezes a noite também- fora de do hotel. E o pior, nossos pais nem se importam! Mas quando a gente vai na esquina com a Lúcia pra tomar sorvete, só falta chamarem a SWAT pra nos acompanhar.

"Vocês não estão acostumadas com o movimento daqui e blablabla"

Estamos acostumadas com São Paulo. Tenho certeza que podemos lidar com Cabo Frio.

Mas eu estou desviando do assunto. O nosso primeiro beijo! Se você não lembra como foi, vou te contar.

Nós conhecemos ele no segundo dia que chegamos aqui, - já faz uma semana- e ele se chama Túlio. Ele é alto, deve ter tipo uns 1,80 e tem a pele bastante bronzeada e tinha um tom dourado, porque escuta só, ele é surfista! Só quando o vimos sem camisa que descobrimos o significado de barriga com tanquinho, mesmo que ele não fosse exatamente forte, mas seu corpo era definido. E vou confessar que gostamos! O cabelo dele é raspado e ele tem um sorriso bem bonito. Nós nao o achamos bonito assim quando ele nos chamou para juntar ao grupinho de amigos dele, na verdade naquele momento, ele nos pareceu bem estranho. Seus olhos eram claros e grandes e seus lábios grossos. Tinha algumas espinhas no rosto e quando ele pegou em nossa mão, sentimos alguns calos. Mas o que nos conquistou, pelo menos, o que conquistou a Sara de 15 anos foi que ele era muito, muito, muito legal. O sorriso lindo dele era um bônus. Nos outros dias, ele começou a parecer mais bonito.

Ele morava no Rio e tinha acabado de passar no vestibular para veterinária. Praticava surf nas horas livres e não tinha costume de vir para Cabo Frio, só veio se encontrar com alguns amigos do Sul, mas disse que valeu a pena. Ele tinha uma ex namorada meio louca, mas não falou muito sobre e pareceu rude perguntar.

e depois de um tempo conversando com ele, 5 dias na verdade, ele finalmente resolveu nos levar para um restaurante gostoso a beira da praia. Lúcia e o amigo dele, Bruno, também foram. Era um encontro de casais e nós nos sentíamos bem, felizes e bonitas. E se lembra do que bebemos? Cerveja. Foi bem ruim no inicio, os dois riram da careta que eu e Lúcia fizemos, mas estávamos em um clima tão bom que bebemos mais um pouco. Nós não ficamos bêbadas, mas definitivamente mais alegre dos que estávamos antes. Depois do jantar, fomos passear na praia. Andamos na frente e Lúcia, que já tinha ficado com o amigo dele, também queriam privacidade. Eles ficara um pouco para trás. Ah, eu te disse que nós saímos escondidas com a Lúcia para nos encontrar com eles. Sinto dizer que te meti em confusão. Um mês de castigo. Nossa primeiro castigo, você se lembrava que tinha sido esse dia? Já tivemos muitos castigos depois disso? Mas ainda não foi o pior da noite, veja bem.

Quando começamos a caminhar, tudo o que nos já ouvimos na televisão veio a tona em nossa mente: estupro, assassinato, sequestro, etc.. Estávamos nervosas. Mas ele percebeu e pegou a nossa mão, dando um beijo carinhoso ali, depois em nosso braço, ombro, pescoço, rosto e finalmente, nossos lábios se encontraram. Estávamos TÃO nervosas que quando sentimos as mãos dele passando pelas nossas costas na parte aberta da bata que usávamos, batemos o dente no dele, na hora pensei que ele fosse nos deixar de lado, mas ele riu alto e nos abraçou, depois nos beijos de novo, e depois nos abraçou. E ficamos assim até o sol sumir. Conseguimos ouvir João nos chamando na rua. Rimos e corremos para mais longe, para fugir dos gritos e ficar mais difícil de nos encontrarem. Ele mandou uma mensagem para seu amigo e pouco depois, ele e Lúcia se encontraram com a gente. Eles gargalhavam juntos e quando imitaram João chamando por nós, todos caímos na gargalhada. Não durou muito. Logo João apareceu como um furacão e nos tirar de lá. Ele ficou bem nervoso, acho que nunca vi João assim. Ele realmente queria pular em cima do Túlio e quando sentiu o cheiro de bebida em mim e em Lúcia, ele pirou. Ninguém acredita, mas sabe quando alguém está muito nervoso em um desenho e sai fumaça das orelhas? Então. Saiu fumaça das orelhas do João. Eu juro.

De qualquer forma, vamos embora amanhã de manhã, mas Túlio mandou uma mensagem perguntando se podia passar aqui antes de sairmos -longe do olhar do João, claro- e dissemos que sim.

Bom, o sonho do primeiro beijo ser com o Rodrigo já melou né? Ainda somos apaixonadas por ele? Temos bunda e peito? Ele já reparou na gente ou estamos em outra? Eu queria saber, mas acho que não tem nada a ver com o Túlio. Ele é bonitinho e tudo mais, e foi tudo muito romântico, por estarmos na praia, mas não acho que ele seja o tipo de cara que nós nos apaixonaríamos. Será? Queria saber o que está acontecendo na vida da Sara mais velha agora, talvez desse pra ajudar a arrumar alguma besteira, mas confio que esteja tudo bem.

Já jantamos, mas Lúcia pediu fritas com bacon e mozarela. Vamos comemorar comendo, mesmo que estejamos de castigo, essa semana foi muito boa. Muito divertida e férias que eu não vou esquecer tão cedo.

Sara




Meu Presente de Natal


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Rodrigo, 9 anos.

Nossa, as manhãs de Natal são mesmo as melhores. Mamãe me acordou hoje dizendo que os presentes estavam embaixo da árvore, e que os biscoitos com leite foram comidos me deixam sempre pensando se o papai noel existe mesmo... Ou não. Cara, seria muito irado. Pensa só num velho que consegue correr o mundo inteiro pra entregar os presentes? Fala séerio.

Eu desci as escadas correndo e tropecei na minha meia do Batman. Ok, sou muito grande pra usar meias do Batman, mas, de verdade, o Batman é o Batman. Não tem idade pra querer ser o Batman. Então eu desci o resto das escadas e quando cheguei à sala de casa, papai estava com meu tio e minha tia. Meu pai. Meu tio e minha tia.

Deixa eu explicar, meu pai mora nos Estados Unidos, e meus tios moram em São Paulo. Então... Não sei se tem presente melhor do que o papai noel deixou pra mim nesse ano. Quando olhei em volta, meu primo estava perto da barra da saia da tia, e me olhou sorrindo, com aqueles cabelos loiros e confusos demais, e eu olhei meu pai.

Papai. Cara, isso sim foi irado. Ele me abraçou e me deu uma caixa que tinha uma coleção de bonecos dos Vingadores. Tinha o Hulk, o Thor, Homem de Ferro e o Capitão América. Mas nem me importei com os bonecos. (Me importei sim, to dormindo com todos eles na minha cama RÁ.) Então, no meio do café da manhã, com a família do meu pai, eu ouvi um chorinho estranho, e vi minha tia levantar. Olhei minha mãe e ela sorriu pra mim, me dizendo que João havia ganhado uma irmãzinha.

Mais crianças? Eu tinha que ver. Levantei e segui minha tia até um carrinho de bebê na sala. Era rosa, e tinha umas coisas penduradas. Tia tirou um bebê loiro e gordinho do carrinho e eu cheguei perto pra ver. Ela parecia uma boneca dessas que eu via nas lojas. Tinha o cabelinho loiro, e os olhos eram bem claros. As bochechas eram meio vermelhas, e a menina era bem branca. Perguntei o nome dela pra minha tia e ela disse que era Sara.

Era bonitinha, Sara.

Depois voltei à cozinha pra terminar de comer, e passei o resto do dia brincando com papai, João, e meu tio. Foi um bom dia de natal.

Guigo.

Por Trás de Olhos Verdes


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Matheus, 14 anos.

Ninguém sabe como é ser o Homem mau, ser o homem triste, por trás de olhos verdes. E ninguém sabe como é ser odiado, rejeitado, destinado a contar apenas mentiras. Todos só vêem através de mim, da minha fome, do meu desespero. Todos só enxergam o garoto sujo, perdido, drogado. Todos os pés que se acumulam na lama das ruas de Porto Alegre, em meio a chuva, chutam mais lixo em minha direção.

Eu pareço vazio, pareço morto. Minha mãe a tempos se foi, e as lágrimas atrapalham minha visão, porque essa é a noite de natal, e mais uma vez eu estou só. Invejo as outras crianças que seguram as mãos de seus pais e por isso estão felizes. Só queria poder estender minha mão e segurar a de alguém que me roubasse do frio. Porque meus sonhos não são tão vazios quanto minha própria consciência parece ser. 

-Se eu beber um veneno, enfie o dedo em minha garganta, e me faça parar. Se eu tremer... Me dê um cobertor que me mantenha aquecido... Por favor... me dê um casaco.

Eu tenho horas de profunda solidão, mas não é por opção. E sinto que meu amor é a vingança que aconteceu. E que nunca me deixará livre. Porque o sangue de meu padastro ainda suja minhas unhas, meus dedos, minha alma.

E ninguém sabe como é sentir esses sentimentos, como eu sinto... E eu culpo a vida, que me pôs na merda novamente. Não reprimo novamente as lágrimas duras como a realidade, que escorre por minha raiva, dor e angústia. É nessa hora que eu me mostro completamente. Ainda que meus sonhos não sejam tão vazios quanto minha consciência, e, em minha solidão, eu veja que minha vingança nunca me permitirá ser livre.

Porque meus pesadelos só começaram, e nunca vão parar. E ninguém sabe como é ser maltratado, ser derrotado, por trás de olhos azuis. Eu não sei como falar que estou arrependido, e que não estou mentindo, e que queria uma chance para ser como outra criança. Uma chance para recomeçar. Passo os dedos sujos de sangue pelo chão molhado e tento limpar as marcas que os mancham. Cuspo nas marcas, firo minha pele. Tenho vontade de gritar.

Porque meus sonhos não eram tão vazios, e minha consciência não era tão atormentada. Eu só queria não ser um homem mau, um homem triste, derrotado, maltratado, odiado, rejeitado. Eu queria que alguém me desse a mão, e segurasse minha dor. Queria ser um menino. Queria que quando meus pulsos se fechassem, alguém os abrisse até quebrar meu desconforto. Seria um ótimo...

...Presente de natal.

Mas nenhuma de minhas aflições ou dores podem transparecer. E, se eu ousar sorrir, me dê alguma notícia ruim, antes que eu sorria e aja como um tolo, porque sou feito de algo pretenso a não ser feliz.


Matt.

Behind Blue Eyes - The Who.

Claro Que Te Amo


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Sara, 18 anos.

Hobbies. Todas as pessoas no mundo tem um. Suas preferências, coisas que todo mundo gosta de fazer, o modo como as pessoas usam seu tempo. Alguns praticam esportes, outros são cinéfilos. Alguns passam o tempo dormindo, outros gostam de escrever, compõem músicas, tocam instrumentos musicais. Eu gosto de pintar. Já devo ter falado ou pensado isso mais de uma vez, mas há um sentimento dentro de mim que me diz que eu estou fazendo o certo, quando ponho cores em uma tela, e monto desenhos. Me acalma, extravasa meus sentimentos, transborda-me por dentro, transformando meus pensamentos em arte.

É como um desejo de deixar minha contribuição para a humanidade. E acho que algumas pessoas, além de mim, tem essa vontade.

Uma delas é a autora de um livro que li recentemente. Lúcia me recomendou, e me deu o livro como presente de natal. Chegou aqui em casa com um pacote da livraria Saraiva, e me entregou. Eu achei realmente lindo da parte dela, me dar de presente um livro com esse título: Claro que te amo.

Nas palavras de Lúcia, o livro tem boa repercussão, e é de uma autora nacional, e com todos esses atributos, ela me convenceu facilmente a ler. Claro Que Te Amo já ganhou minha simpatia daí. Ele passou uns dias em cima da minha mesa de cabeceira, e eu procurava um motivo para ler, até que mais um fim de semana reclusa em meu quarto me levou a abri-lo. Não me arrependo em nenhum momento, desde que comecei essa leitura. Eu gostei mais do que achei que gostaria. Muito mais, na verdade. Surpreendi-me.

Vou contar um pouco da história, mas sem estragar nenhuma das melhores partes... Aliás, só quero compartilhar essa experiência única. Piera, a personagem central de Claro que te amo, assiste, escondida, ao casamento do ex dela. Muito fossa, mesmo, mas eu me identifiquei em gênero, número e grau. Sabe, eu já passei por um momento parecido, quando conheci Lílian, a namorada que Rodrigo arrumou durante minha viagem à Paris, ano passado. Enfim, eu me identifiquei com o sentimento de Piera, quando viu o ex casar, logo na primeira página. Tipo... Amiga, eu te entendo completamente.

Depois desse momento difícil para ela, e entre várias lições de vida que eu já levo para mim, como crescimento pessoal, Piera conhece Marcelo, que é tipo a perfeição em forma de ser humano. Mas não vou contar mais nada, porque, enfim, eu quero que você também leia e se sinta como eu, tomada pelo livro, e em completo êxtase com o final, e em ressaca literária depois que acabar. Me senti orfã da história, como em todo bom livro.

Ajudou-me a passar o tempo, sonhar um pouco, e desanuviar minha mente, porque, em como tudo o que acontece na minha vida, tenho meus problemas, e sempre tento me organizar. Ler é minha válvula de escape, e tem sido algo que me ajuda muito. Mal posso esperar por alguma nova história que me arrebate como esta me arrebatou.

E pra esta história, contada por Tammy Luciano, só tenho uma coisa a dizer: 

...Claro que te amo.

Sara.


Christmas Tree.


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Brent, 20 anos.


Enquanto a neve caía do lado de fora da janela, eu pensava.
As luzes eram brilhantes, coloridas.
Eu ouvia canções de natal e me esquentava com o calor da lareira.
Ouvia o crepitar da lenha queimando, bebia algo quente que minha avó preparava.
Todo natal na casa dela era silencioso, e eu sinto saudades.
O cheiro dos biscoitos recém saídos do forno ganhava a casa inteira.
Assistíamos então os especiais de Natal na TV.
Eu era apenas uma criança.

Em outros Natais eu saía com meus amigos.
Patinava na pista que havia em meu bairro.
Lembro que naquela pista, numa véspera de Natal, dei meu primeiro beijo.
Já naquele tempo eu conhecia a Tampinha.
E já sentia-me ligado a ela.

Lembranças distantes da minha realidade atual.
Ainda é o mesmo Natal. As mesmas festas, os desejos, a ceia.
Ainda posso sentir o cheiro dos biscoitos, e o crepitar da lareira.
O vento frio, os sinos do coral de crianças que visitava as casas.
Os especiais da TV ainda são os mesmos, só minha companhia me falta.
O sorriso de minha avó, com sua delicadeza idosa, desapareceu.
Mas não de minha memória.
Eu ainda posso ver, em meus sonhos, a neve rodopiando pelo ar, do lado de fora da janela.
E as noites escuras ainda estão iluminadas pelas luzes coloridas, que enfeitam as casas.
Era com ela que eu gostava de montar a árvore de natal.

No meio da sala, com as caixas de presentes no chão.
Cada pingente representava uma lembrança dela, coisas que ela guardava através dos anos.
Colecionava bolas coloridas, anjos de porcelana, estrelas brilhantes.
Ela dizia que cada peça ali guardava uma de suas memórias.
Algumas eram presentes de pessoas de seu passado, outras ela mesma havia comprado em lojas de departamentos.
Nós montávamos os pingentes e colocávamos sobre os galhos.
Era uma tradição que mantivemos enquanto ela foi viva.

Eu a mantenho viva em cada pingente que vejo, em cada árvore de Natal que observo.
De shoppings, à casas de amigos.
Ela viverá enquanto a tradição persistir.
Como por último, eu criei uma lição, para que sua memória se preserve em ensinamento.
Nada que ela tenha me dito, mas que eu mesmo digo.

A árvore de Natal é como sua vida, e cada galho é como um momento dela. Os pingentes são nossas escolhas, que criam nossa história. Um passado intensamente vivido significa mais pingentes para adornar sua árvore, e quanto mais bonito o pingente, mais bonita será a árvore, no fim.


B. Carter.


Verdade Ou Consequência


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Sara, 14 anos.

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Cheguei à algumas conclusões hoje, diário. Primeiro, vou parar de te tratar como se você existisse realmente. Tá na cara que isso é infantil, e pra uma pessoa que quer se afirmar como adolescente, quase adulta, não combina frases como: Querido diário. Portanto, sei que vai sentir saudade, mas a partir de agora vou parar de te tratar como um amigo. Por mais que você ainda seja, mas guarda isso em segredo.

É que eu queria ser mais velha do que realmente sou. Então as pessoas me levariam a sério, porque eu realmente tenho uma opinião a compartilhar, eu tenho uma voz. Tenho minhas necessidades, como qualquer pessoa. E todos deveriam ver que eu cresci, okay, não em tamanho, porque parece que Deus não quis que eu crescesse além desses 1.60 m. Mas em minha cabeça, eu já amadureci.

Só que continuo como a café com leite do grupo. Rodrigo parece ter perdido o interesse em ficar comigo e com Brent, e só aparece de vez em quando. Ele quer formar uma banda, só porque está fazendo faculdade de música. Já Brent sempre com aquele jeito frio, fica me protegendo de tudo, como se eu fosse criança. Algumas vezes, só algumas, eu tenho a impressão de que ele sente algo por mim. Seria assustador, se fosse verdade, porque Brent é um amigo, e eu nunca pensei em ficar com ele. Por mais que ele seja gatinho. hehe. O problema é que Rodrigo é o homem da minha vida, desde.. Affew, deve ter em algum lugar por entre os diários. Mas... O que eu ia mesmo contar quando peguei o diário...

AH SIM! Preciso crescer o mais rápido possível. Sério. Porque ontem à noite minha idade me impediu de realizar meu sonho de consumo 4EVER. Mas enfim, ontem à noite eu estava na casa deles, com meus pais, e nós três e alguns amigos do Rodrigo fomos ao porão, porque Rodrigo queria mostrar algumas músicas que ele compôs. Até aí, tudo bem, eu consegui me entrosar fácil, apesar de achar que as amigas de faculdade do Rodrigo estavam me olhando de cara feia. De certo pensaram que eu era muito pirralha para estar ali, mas eu cheguei antes delas na vida dele, então quero que elas explodam.

Depois de um tempo, uma das meninas propôs um jogo de Verdade ou Consequência. É LÓGICO que eu quis participar, e como todos concordaram, eu tentei sentar do lado de Rodrigo, mas uma das piranhas me empurrou e eu fiquei do lado de Brent e de Júlio, um amigo de Rodrigo que é irmão de Vanessa, uma colega minha de escola. Vi que Brent me olhou repetidas vezes antes de olhar a garrafa no meio da roda, mas não retornei nenhum dos olhares dele, porque na certa ele ia me mandar sair dali antes de o jogo começar. E uma das meninas girou a garrafa, fazendo o jogo começar.

Depois de perguntas e de consequências meio... Estranhas, do tipo cuspir dentro de um copo a três metros de distância, a garrafa apontou para mim. A pergunta seria de Rafaela, uma ruiva de cabelo cacheado que estava ao lado de Rodrigo, e parecia tentar conquistá-lo. Ela me olhou com uma carinha nada boa e soltou uma pergunta que me mortificou, quando eu escolhi Verdade.

"Então, Sara... Você já beijou algum cara?"

Ela foi má. É óbvio que eu sou BV, só consigo olhar para Rodrigo desde... Criança. Nunca me interessei por ninguém mais. Como eu sairia dali? Como eu saí? É Diário... Falei a verdade. Ouvi a risada de Júlio e mordi o lábio com força. Desviei os olhos do lado do que ria e vi Brent olhar para frente, ele tentava me apoiar.

"Certo, gira a garrafa, Tampinha."

Disse com aquela voz de tédio. Eu respirei aliviada, mas quando girei a garrafa, e ela apontou para Júlio, eu o olhei, e aquele sorrisinho malicioso me deu nos nervos. Então ele quis a consequência, e eu olhei Brent, pedindo ajuda sobre o que usar como consequência. Mas o próprio Júlio se adiantou, e me ofereceu algo.

"Se quiser, eu te beijo. Acaba com dois dos seus problemas... Seria um prazer."

Eu arregalei os olhos e mirei Júlio, com sentimentos misturados... Queria bater na cara dele, e sentia vergonha. Ouvi Rodrigo tossir, e Rafaela ofegar, rindo depois. Até que todos riram, e eu sorri, engolindo no seco aquela proposta. Eu pensei que Brent me tiraria daquela, como fazia todas as vezes, mas quem falou foi Rodrigo, e eu o olhei TOTALMENTE surpresa.

"Minha priminha não, Júlio. Manda ele jogar sem opção de fazer pergunta, e mandar logo uma consequência."

E eu fiz isso. Não sei porque, mas fiz isso, e Júlio girou a garrafa. Que caiu em Rodrigo. SIM, Diário, caiu em Rodrigo. E advinha qual a consequência que Júlio impôs?

"Sua priminha, seu beijo. Vai ter que beijar a Sara."

Pasme, ele pediu isso. Eu arregalei os olhos novamente e ouvi Rafaela protestar, dizendo que aquilo era ridículo, que o jogo não era só sobre mim, e que haviam outras consequências, e que haviam outras meninas ali, mas Júlio rebateu, dizendo que a única que nunca tinha beijado ninguém era eu. Brent interveio, e falou que eu só podia fazer algo assim se quisesse, então todos me olharam. Eu não consegui encarar ninguém ao meu redor, e só tirei o corpo fora. Então Rodrigo disse que faria.

ELE DISSE QUE FARIAAAAAA!!!!

Eu pirei, sério, mas por dentro, né? Porque... Quando ele chegou perto de mim, eu o olhei muito nervosa, e acho que ele interpretou de uma forma errada, e segurou meu rosto pelo queixo com um sorriso que me acalmou. Eu sorri sem querer, e ele beijou minha testa, e minha bochecha, e sussurrou na minha pele.

"Fica tranquila, não vou fazer nada." Depois ele se afastou e olhou pros amigos. "Aí, ela é café com leite, não dá pra pegar penitências mais pesadas, vou girar a garrafa."

É, quase rolou. Mas ele disse que eu era café com leite. CAFÉ COM LEITE. Tem noção de o quanto eu quero crescer, agora?

Sara.