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Quebra de confiança


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Matheus, 15 anos.

É bom saber que alguém se importa com você, mas eu não me iludo com isso. Piedade, compreensão, amizade verdadeira. Isso tudo é palhaçada. Isso não existe. O que existe é o interesse. Se alguém se aproxima de você, saiba que é porque ela quer alguma coisa com isso. Nem que seja não estar sozinha, ou se sentir bem por fazer algo bom. É tudo apenas interesse, então, não se iluda também. É idiotice.

Eu me deixei iludir por isso uma vez, e não vai acontecer novamente.

O céu já estava escuro e a noite estava fresca. Eu estava sentado no estacionamento de um supermercado comendo um pacote de biscoito que uma velhinha deixou cair da sacola sem perceber. Não me chame de ladrão por isso, ela tinha muito mais na sacola, e esse pacote não vai fazer muita falta. Mas nesse dia, um homem se aproximou de mim e me entregou um cobertor. Eu conhecia ele. Era o segurança do lugar. Seus olhos eram duros, mas um leve sorriso tomava conta de seus lábios. Depois disse dia, ele passou a me levar comida nas noites em que eu estava lá e nunca perguntou como eu arrumava os machucados no meu rosto ou cicatrizes. Até mesmo me convidou para ir para sua casa e depois de certa insistência dele, eu aceitei.

Sua casa era simples e eu tinha que dormir no sofá, mas era confortável e quente. E tinha comida. Aos poucos, eu consegui evitar de usar as merdas que costumava usar, foram semanas boas, mas durou pouco.

Uma noite eu acordei com ele em pé ao lado do sofá, sua calça estava nos joelhos e o cinto em sua mão. Foi um dos momentos mais desesperadores da minha vida. Eu o empurrei e nos envolvemos em uma breve briga, apesar de ele ser maior que eu e mais forte, o meu instinto me ajudou. Havia uma garrafa de cerveja na pia e eu bati em sua cabeça. Ele caiu e eu corri.


Era a minha deixa para deixar aquela cidade. E um lembrete de que não se pode confiar em ninguém.

Por Trás de Olhos Verdes


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Matheus, 14 anos.

Ninguém sabe como é ser o Homem mau, ser o homem triste, por trás de olhos verdes. E ninguém sabe como é ser odiado, rejeitado, destinado a contar apenas mentiras. Todos só vêem através de mim, da minha fome, do meu desespero. Todos só enxergam o garoto sujo, perdido, drogado. Todos os pés que se acumulam na lama das ruas de Porto Alegre, em meio a chuva, chutam mais lixo em minha direção.

Eu pareço vazio, pareço morto. Minha mãe a tempos se foi, e as lágrimas atrapalham minha visão, porque essa é a noite de natal, e mais uma vez eu estou só. Invejo as outras crianças que seguram as mãos de seus pais e por isso estão felizes. Só queria poder estender minha mão e segurar a de alguém que me roubasse do frio. Porque meus sonhos não são tão vazios quanto minha própria consciência parece ser. 

-Se eu beber um veneno, enfie o dedo em minha garganta, e me faça parar. Se eu tremer... Me dê um cobertor que me mantenha aquecido... Por favor... me dê um casaco.

Eu tenho horas de profunda solidão, mas não é por opção. E sinto que meu amor é a vingança que aconteceu. E que nunca me deixará livre. Porque o sangue de meu padastro ainda suja minhas unhas, meus dedos, minha alma.

E ninguém sabe como é sentir esses sentimentos, como eu sinto... E eu culpo a vida, que me pôs na merda novamente. Não reprimo novamente as lágrimas duras como a realidade, que escorre por minha raiva, dor e angústia. É nessa hora que eu me mostro completamente. Ainda que meus sonhos não sejam tão vazios quanto minha consciência, e, em minha solidão, eu veja que minha vingança nunca me permitirá ser livre.

Porque meus pesadelos só começaram, e nunca vão parar. E ninguém sabe como é ser maltratado, ser derrotado, por trás de olhos azuis. Eu não sei como falar que estou arrependido, e que não estou mentindo, e que queria uma chance para ser como outra criança. Uma chance para recomeçar. Passo os dedos sujos de sangue pelo chão molhado e tento limpar as marcas que os mancham. Cuspo nas marcas, firo minha pele. Tenho vontade de gritar.

Porque meus sonhos não eram tão vazios, e minha consciência não era tão atormentada. Eu só queria não ser um homem mau, um homem triste, derrotado, maltratado, odiado, rejeitado. Eu queria que alguém me desse a mão, e segurasse minha dor. Queria ser um menino. Queria que quando meus pulsos se fechassem, alguém os abrisse até quebrar meu desconforto. Seria um ótimo...

...Presente de natal.

Mas nenhuma de minhas aflições ou dores podem transparecer. E, se eu ousar sorrir, me dê alguma notícia ruim, antes que eu sorria e aja como um tolo, porque sou feito de algo pretenso a não ser feliz.


Matt.

Behind Blue Eyes - The Who.

Um último Adeus.


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Matheus, 13 anos.

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Então ela partiu também. Minha mãe fechou os olhos pela última vez, e eu não tenho pai. Estou, finalmente e oficialmente, sozinho. Fui expulso do Trailer, mas não queria mesmo ficar ali com meu padrasto. Prometi a mim mesmo que ainda o mataria, e vou.

Um dia.

Eu posso até estar na merda, mas não vou acabar assim. Vou descobrir o mundo, vou conhecer tudo, todos. Eu quero explorar, habitar, quero viver. Quero jogar. E para que isso comece, eu preciso de mais coragem. Essa é a hora, e lá vou eu. O Brasil é um país muito grande para que eu morra na rua, no meio das bocas de fumo. Agora é hora de começar minha vida, e me libertar dessa merda na qual eu estava enfiado até o pescoço.

Matt.