Mostrando postagens com marcador Rodrigo Carvalho Guano. Mostrar todas as postagens

Minhas intenções


.

Rodrigo, 24 anos.
Quando pensei em levar minha priminha à festa, tinha apenas uma intenção. Fazer com que ela se distraísse, e me distrair. Somos amigos, dos bons, e Sara é uma das minhas companhias preferidas. Uma irmã mais nova. E o jeito como ela me trata... Ela me faz muito bem. Por isso eu tive coragem de levá-la àquela festa. Não estava nos meus planos encontrar Rafaela, mas como ela se mostrou receptiva, disse a minha priminha que eu ia dançar um pouco e que ela podia ficar por ali e até dançar com quem ela tivesse vontade. Eu não queria embaçar a festa dela, também. Sara merecia um pouco de liberdade, e eu concedi. Fui até Rafaela e ficamos um tempo dançando.
Até que ela me beijou, e, como eu estava com vontade, não contei muito para entrar na dela. Quando dei por mim, Brent estava com Sara e os dois conversavam num canto. Fiquei aliviado, porque, apesar de ela não estar ficando com ninguém, pelo menos não estava sozinha. E fiquei com um pouco de peso na consciência... Talvez não devesse tê-la deixado sozinha, mas a carne foi fraca.
Pelo menos Brent estava lá. Sempre lá, perto dela, fazendo-a sorrir, mesmo que nem ele fosse assim de sorrir e rir. Sara estava em boas mãos, e eu fiquei aliviado. Então curti o resto da noite com Rafa. Não que eu vá namorá-la, e eu espero que ela saiba disso. Quando eu quiser namorar de verdade, vou atrás de alguém mais interessante.

Guigo.

O Dia Mais Esperado do Ano


.

Rodrigo 14 anos

Eu não tinha dormido durante a última semana inteira. Tudo tinha que estar perfeito e a cada vez que eu deitava a minha cabeça no travesseiro, me lembrava de alguma coisa fora do lugar e me obrigava a levantar para arrumar, antes que eu me esquecesse. Podia ser a minha guitarra, que eu já havia aprendido a tocar algumas músicas e estava muito ansioso para mostrar à ele.

Também queria que ele visse o meu quarto arrumado e se sentisse orgulhoso de mim pelos estudos, por isso me esforcei dobrado para as últimas provas. Ele chegaria na semana em que eu deveria recebe-las e queria mostrar a ele que ele tinha dois filhos inteligentes, não apenas Brent. Eu também tinha os meus talentos e podia ser tão bom quanto o meu irmão mais novo.

Naquele dia, eu saí da aula correndo para chegar em casa antes dele, mas me surpreendi ao sair da escola e ver meu pai parado na porta. Ele olhava em volta dos alunos, procurando por mim. Quando me viu, ele sorriu, e eu soube que seu sorriso era sincero. Ele estava feliz por estar ali. Feliz por me ver.

Não pude evitar a felicidade e corri ao encontro dele, sem me importar com as lágrimas que desciam pelo meu rosto. Meu pai estava aqui, isso era tudo o que importava. Talvez ele voltasse de vez para o Brasil e viesse morar comigo e com minha mãe. Isso seria o máximo, mas sei que estou sonhando alto demais e daqui a alguns dias, ele vai embora de novo, mas não quero pensar nisso agora. Meu pai esta aqui e mesmo que seja inútil, vou mostrar a eles todas as vantagens de se morar aqui e fazer com que valha a pena para ele. Fazer com que ele se lembre de mim quando voltar para a família nova dele.

Tenho que ir agora, aproveitar o meu pai com o pouco tempo que eu tenho com ele. Não sei quando ele volta, mas espero que seja logo.

Guigo 



Meu Presente de Natal


.

'
Rodrigo, 9 anos.

Nossa, as manhãs de Natal são mesmo as melhores. Mamãe me acordou hoje dizendo que os presentes estavam embaixo da árvore, e que os biscoitos com leite foram comidos me deixam sempre pensando se o papai noel existe mesmo... Ou não. Cara, seria muito irado. Pensa só num velho que consegue correr o mundo inteiro pra entregar os presentes? Fala séerio.

Eu desci as escadas correndo e tropecei na minha meia do Batman. Ok, sou muito grande pra usar meias do Batman, mas, de verdade, o Batman é o Batman. Não tem idade pra querer ser o Batman. Então eu desci o resto das escadas e quando cheguei à sala de casa, papai estava com meu tio e minha tia. Meu pai. Meu tio e minha tia.

Deixa eu explicar, meu pai mora nos Estados Unidos, e meus tios moram em São Paulo. Então... Não sei se tem presente melhor do que o papai noel deixou pra mim nesse ano. Quando olhei em volta, meu primo estava perto da barra da saia da tia, e me olhou sorrindo, com aqueles cabelos loiros e confusos demais, e eu olhei meu pai.

Papai. Cara, isso sim foi irado. Ele me abraçou e me deu uma caixa que tinha uma coleção de bonecos dos Vingadores. Tinha o Hulk, o Thor, Homem de Ferro e o Capitão América. Mas nem me importei com os bonecos. (Me importei sim, to dormindo com todos eles na minha cama RÁ.) Então, no meio do café da manhã, com a família do meu pai, eu ouvi um chorinho estranho, e vi minha tia levantar. Olhei minha mãe e ela sorriu pra mim, me dizendo que João havia ganhado uma irmãzinha.

Mais crianças? Eu tinha que ver. Levantei e segui minha tia até um carrinho de bebê na sala. Era rosa, e tinha umas coisas penduradas. Tia tirou um bebê loiro e gordinho do carrinho e eu cheguei perto pra ver. Ela parecia uma boneca dessas que eu via nas lojas. Tinha o cabelinho loiro, e os olhos eram bem claros. As bochechas eram meio vermelhas, e a menina era bem branca. Perguntei o nome dela pra minha tia e ela disse que era Sara.

Era bonitinha, Sara.

Depois voltei à cozinha pra terminar de comer, e passei o resto do dia brincando com papai, João, e meu tio. Foi um bom dia de natal.

Guigo.

Um dia de Descobertas.


.

Rodrigo, 16 anos.

'

Ninguém me entende. Às vezes, nem eu me entendo. De verdade. Mas neste exato momento estou sozinho em meu quarto, onde quero ficar para sempre. Deve ser um sonho, um pesadelo, aliás. Queria não ter escutado aquilo no consultório do médico... Queria achar que ele está errado... Se não fosse o quinto médico que dá o mesmo diagnóstico para minha mãe. As paredes daquele hospital agora deverão ser familiares para mim. 

ELA. Esclerose Lateral Amiotrófica. É um nome difícil, mas é um nome. É a explicação para as quedas da minha mãe. A falta de coordenação... Eu não sei explicar o que é a doença dela, só sei o nome, e é tão difícil que eu resumi em outro nome de doença. Prisão corporal. Agora eu sinto medo do que pode acontecer com ela. Não quero que ela passe o resto da vida atrofiando, como os médicos dizem que vai acontecer... Vivendo dentro de um hospital. Não pode ser. 

Escuto a porta do meu quarto bater, mas são batidas tão leves, que penso serem de criança. Sento-me na cama e espero a porta se abrir. Ela revela a criança de cabelos loiros, e olhos grandes. Sorrio levemente, e a chamo para se aproximar. Minha priminha. No mínimo ela vai começar a contar sobre o dia na escola, vai me pedir pra brincar com ela... Algo assim. E é justamente o que ela faz, quando pula na minha cama e em cima de mim. Eu rio com a risada dela, e sinto minha dor diminuir aos poucos. Sarinha é a criança mais cheia de vida que eu conheço.


Guigo.