Por Trás de Olhos Verdes


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Matheus, 14 anos.

Ninguém sabe como é ser o Homem mau, ser o homem triste, por trás de olhos verdes. E ninguém sabe como é ser odiado, rejeitado, destinado a contar apenas mentiras. Todos só vêem através de mim, da minha fome, do meu desespero. Todos só enxergam o garoto sujo, perdido, drogado. Todos os pés que se acumulam na lama das ruas de Porto Alegre, em meio a chuva, chutam mais lixo em minha direção.

Eu pareço vazio, pareço morto. Minha mãe a tempos se foi, e as lágrimas atrapalham minha visão, porque essa é a noite de natal, e mais uma vez eu estou só. Invejo as outras crianças que seguram as mãos de seus pais e por isso estão felizes. Só queria poder estender minha mão e segurar a de alguém que me roubasse do frio. Porque meus sonhos não são tão vazios quanto minha própria consciência parece ser. 

-Se eu beber um veneno, enfie o dedo em minha garganta, e me faça parar. Se eu tremer... Me dê um cobertor que me mantenha aquecido... Por favor... me dê um casaco.

Eu tenho horas de profunda solidão, mas não é por opção. E sinto que meu amor é a vingança que aconteceu. E que nunca me deixará livre. Porque o sangue de meu padastro ainda suja minhas unhas, meus dedos, minha alma.

E ninguém sabe como é sentir esses sentimentos, como eu sinto... E eu culpo a vida, que me pôs na merda novamente. Não reprimo novamente as lágrimas duras como a realidade, que escorre por minha raiva, dor e angústia. É nessa hora que eu me mostro completamente. Ainda que meus sonhos não sejam tão vazios quanto minha consciência, e, em minha solidão, eu veja que minha vingança nunca me permitirá ser livre.

Porque meus pesadelos só começaram, e nunca vão parar. E ninguém sabe como é ser maltratado, ser derrotado, por trás de olhos azuis. Eu não sei como falar que estou arrependido, e que não estou mentindo, e que queria uma chance para ser como outra criança. Uma chance para recomeçar. Passo os dedos sujos de sangue pelo chão molhado e tento limpar as marcas que os mancham. Cuspo nas marcas, firo minha pele. Tenho vontade de gritar.

Porque meus sonhos não eram tão vazios, e minha consciência não era tão atormentada. Eu só queria não ser um homem mau, um homem triste, derrotado, maltratado, odiado, rejeitado. Eu queria que alguém me desse a mão, e segurasse minha dor. Queria ser um menino. Queria que quando meus pulsos se fechassem, alguém os abrisse até quebrar meu desconforto. Seria um ótimo...

...Presente de natal.

Mas nenhuma de minhas aflições ou dores podem transparecer. E, se eu ousar sorrir, me dê alguma notícia ruim, antes que eu sorria e aja como um tolo, porque sou feito de algo pretenso a não ser feliz.


Matt.

Behind Blue Eyes - The Who.

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